31.10.08
BOCA

A arte é mesmo fascinante!
Desperta os sentidos e cada um acha uma beleza particularmente interessante, e faz um registro dessa impressão.
E a onda chora…e a onda é onda
vai buscar no fundo do mar a gota
que a faz transbordar, forte ou fraca
sempre a chorar…
A onda vai e volta
e a gente que sente a vida passar, muitas vezes não passa com ela,
fica parado no mesmo lugar, numa ilusão, numa ilha, sem saber ir nem voltar.
Acho que o mar não lamenta a onda! Já as ondas, sabe lá…
Palavra por palavra
Fiapo de linha
Lágrima…
Abraço de nuvem
O tempo de luvas
Chove…
Novas folhas, cheiro de céu
Tapete de estrelas
Chão…
Perfume na rosa
Dos ventos
Um sopro…
Assim…
Movimento marcado
De sombra
Disfarce o fruto
Apodrecido
Sentidos…
Um bem querer
Resistente ao tempo
Cimento
Pedra e Flor!
Areia no vento.
Pétalas
De repente
Era Amor!
Não rasteja, voa alto ou na roseira
Pousa assim sem querer nada
Fita teus olhos, Come teu cheiro
Beija teu gosto
Na delicadeza de te sonhar
De te querer, de te buscar
Te deixa saltar a janela
Abrindo os porões
Da noite encantada
Pontuada de emoção
Por te saber estrela
Te sentir na imensidão
Um sinal de amor
Que te leva sempre
Numa direção que não é a minha
Mas que caminha na estrada de me levar
De me fazer voar
Mesmo que eu sinta medo
Que me faz pequena
Vou molhar tua sombra na água
Vou pisar nas poças, encharcar
Minha vida de você
Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor
Contos da água e do fogo
Cacos de vidas no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração pro cantor
Vida e mais vida ou ferida
Chuva, outono, ou mar
Carvão e giz, abrigo
Gesto molhado no olhar
Calor que invade, arde, queima, encoraja
Amor que invade, arde, carece de cantar
(Tunai/ Milton Nascimento)
Sopram meu ouvido no peito
Batem no peito do ouvido
Faz da minha mão novo abrigo
Dos sonhos de me refazer
Certos sentimentos me invadem
Quando nada mais posso dizer
Como as canções que hoje canto
nesse meu longo entardecer
Mas a emoção me alcança
É o sentimento do amor
Que sem bater já entra
Rasgando o avesso de mim
Me deixa inteira de novo
Como fosse a flor de antes
Sem o mal-me-quer
Do bem-querer
Sons e silêncios, marcam nossos passos, lentos ou muito rápidos, no tempo ou noutro compasso, é acalanto, desperta(dor), a-cor-da
a gente pro dia de viver…E nos dá pausas pra entender que "todo dia é dia de viver"
e tudo isso deixa o coração inquieto
ver a vida na corda bamba, desorientada,
buscando um equilibrio distante…
é um tema que busca o "chão" das coisas
revirando terras em busca da semente
pra replantá-la sem o veneno de hoje
e as esquinas são dobradas…
as reticências não são indeferença
é um grito no escuro, que me cala
seus versos são fortes e reais
a imagem registra vida
mesmo em tons de cinza
por culpa dum olhar
que não doa luz
aos que lhe são semelhantes
é culpa dos sentidos
que não sentem, não agem
ata as mãos, cega os olhos do coração
que já não vê tantas semelhanças entre
tantos de nós, nas esquinas, não nos vemos…
A violência é sempre um fracasso. Sinaliza a dificuldade em manter o autodomínio, o discernimento.
Quem violenta sexualmente, independentemente da idade e dos laços familiares, não é capaz de comunhão, de entrar em diálogo amoroso através do olhar. Como diz o Pe. José Brombal, não consegue ver no rosto diferente a imagem de Deus.
Quem usa de violência, seja ela física ou psicológica, para extorquir ou roubar, para oprimir, perde-se do ser humano, que é, e faz do poder a ameaça da fera.
E há tantos tipos de violência: doméstica, humilhação, tortura, a de não respeitar as leis, como as do trânsito, dos direitos dos outros, dos deveres…
Recentemente, um caso de violência surpreendeu-me, apesar de entendê-la. A moça já viveu décadas e sua história contém violência guardada. O pai morreu, vítima de mau tempo, no percurso da maternidade, quando pretendia conhecê-la em seu primeiro dia de luz. Da mãe, possui poucas recordações, pois partiu quando ela, a mais nova, não chegara aos cinco anos. A irmã mais velha, há pouco saída da adolescência, recém-casada, inexperiente para ser, repentinamente, mãe de tantos, ficou com os irmãos e os filhos que foram chegando. Apesar da boa vontade da irmã, os meninos e as meninas cresceram sem “amarras” de carinho. No colo da irmã cabiam somente os bebês. Confundiram ternura com aventura e foram assim pelo mundo, sem alforje, sem caneta e letras, com os olhos arregalados, entregues aos momentos.
A moça, que conheço um pouco mais, não se assustou com a realidade e para as feridas não pediu ajuda. Mascarou-as com ungüento próprio, que muitas vezes faziam-na sofrer mais.
Ainda jovem, como a irmã, vieram para sua tenda os filhos que eram dela e os dos próximos. Acostumara-se com ninho sem portas. Ensinaram-lhe que o essencial era um canto para dormir e a refeição repartida.
Há poucos dias, um dos genros ofendeu a filha. Chamou-a de sexualidade vadia. Sem dúvida, para a moça, ter vivido por um tempo da troca do corpo pelo: alimento dos filhos, aluguel do cômodo, valor do remédio, é a sua mágoa maior. Estão impressos nela o sofrimento pelo preconceito e a humilhação de tantos anos e chega a sentir culpa pelo que ouviu e ouve, pelos olhares que a machucam. Não admite essa dor para a filha. Protegeu-a, de imediato, com seu coração retalhado. Juntou-se a outros da casa e machucou o genro, imobilizando-o com o transbordar do pus das úlceras. Assim como aconteceu nos descaminhos dela: nunca lhe deram a chance de contar, de explicar, de dizer onde sangrava. Bateu sem compaixão, como jamais tiveram dela. Foram os dois para o hospital. As carnes não resistiram e os ossos foram atingidos.
Ela, por um tempo, percorre seus caminhos com sinais da fúria e mostra, aos que a questionam, que reagiu ao julgamento que sempre a dilacerou. As chagas, no entanto, continuam intactas. Ao coração danificado, somaram-se a pele e o esqueleto. O genro aguarda o dia da cirurgia para recuperar os movimentos e, talvez, reaver o relacionamento em comum, “entre tapas e beijos”, com a companheira a quem chamou de sexualidade vadia.
A violência é sempre um fracasso e na violência dela também me senti fracassada. Supunha que, nesses últimos anos, ela destampara os frascos dos venenos que nela foram inoculados e que, no lugar, havia o perfume do vaso de alabastro, com o qual a mulher pecadora ungiu os pés de Jesus, após lavá-los com lágrimas e enxugá-los com os cabelos. A mulher que ouviu o Senhor dizer a Simão: “Por essa razão, eu te digo, seus números pecados lhe são perdoados, porque ela demonstrou muito amor”. (Lucas 7, 36-50). Imaginara que se ela não conseguira colocar fragrância de flores nos frascos de seu caminho, os tivesse, após retirar o veneno, preenchido com mirra.
Fácil, de minha torre, que vendaval algum conseguiu destruir, crer que é simples mudar o aroma dos desmoronamentos, dos escombros. O tempo é de Deus e Ele sabe quando ela conseguirá experimentar de fato a presença do Misericordioso. A mim cabe reger a fé, a esperança e a caridade, a cada dia, na vida dela. E é na fé, esperança e caridade que releio os versos de Pablo Neruda:
“Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência”.
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher e
autora de “Nos Varais do Mundo/ Submundo” –
Edições Loyola
Fonte: http://sol.sapo.pt/blogs/paz/